O papel do Brasil no mundo a partir de 2019

O Brasil enfrenta hoje dois desafios de natureza econômica e política. O primeiro refere-se ao modelo de desenvolvimento econômico que garanta o crescimento anual do PIB acima de 3.5%. O modelo de substituição de importações e protecionismo comercial e de crescimento para dentro, em vigor há 7 décadas, esgotou-se em função de seu próprio sucesso. O desafio atual implica em escolher modelo de crescimento para fora conjugado com abertura comercial.

O desafio político implica em definir os interesses prioritários do país no concerto das nações, à luz do neo-isolacionismo norte americano, de emergência da China como potencia econômica politica, militar e de ambições imperiais, o esforço da Federação russa de manter seu poderio na Europa do leste e no Mediterrâneo Oriental. No momento, a Diplomacia, a Academia e a Mídia tem elaborado cenários variados que buscam responder reativamente à pergunta de qual papel cabe ao Brasil diante dos conflitos, abertos ou latentes, entre esses grandes polos de poder mundial.

Nestas notas sugiro uma inversão de perspectiva. Busco sugerir uma política externa brasileira definida estrategicamente em função de suas fortalezas atuais e potenciais para então, como consequência, explicitar planos de ações concretos nas suas relações com os Estados Unidos da América, a China Continental, a Rússia e outros polos regionais de poder como Índia, Indonésia, África subsaariana.

Excluo intencionalmente a América do Sul desta enumeração por acreditar que este subcontinente, sob a liderança brasileira, deve constituir o campo de ação propositiva da nova política externa do país e não se sujeitar a ser meramente alvo de iniciativas políticas e econômicas vindas de fora da região.

Não se trata de inventar a roda. O Brasil pode desenhar um plano estratégico semelhante ao que Chu En-Lai desenhou para a China com o objetivo de transforma-la numa grande potencia combinando o crescimento fronteiras a dentro com uma adequada inserção internacional.

A partir de 1950, o Brasil também havia decidido em se transformar numa potencia combinando o crescimento fronteiras a dentro com um protecionismo comercial, autárquico e fortemente subsidiado pelo Tesouro Nacional. Entre o século XX e XXI, a China tomou carona na onda de globalização e rapidamente colocou a indústria chinesa integrando-se nas cadeias globais de valor.

O Brasil, diferentemente, ensaiou um tímido programa de inserção de sua indústria nas cadeias regionais de seus sócios do Mercosul e manteve uma visão autárquica e protecionista em relação ao resto do mundo, seja o desenvolvido, seja o em desenvolvimento.

Segundo a revista The Economist, a globalização está sendo substituída pela “Slowbalisation” onde a integração de cadeias regionais de valor ganham uma sobrevida. É neste contexto que abre uma grande oportunidade para o Brasil almejar transformar-se num polo regional de crescimento econômico e de importância política através de um ambicioso programa de revisão conceitual dos objetivos integracionistas do Mercosul acoplado a um igualmente ambicioso programa de negociação com a Aliança do Pacífico, com Bolívia e Equador e, quando possível, com a Venezuela.

Considerando que as barreiras tarifárias já quase se extinguiram neste grupo alargado de países, os principais objetivos das negociações comerciais devem estar concentrados nos campos das restrições não tarifarias, dos obstáculos burocráticos no comércio transfronteiriço e no vasto campo das políticas regulatórias que viabilizam o melhor aproveitamento das estruturas logísticas subcontinentais, das normas técnicas até os diversos modais de transporte transfronteiriço. A geografia subcontinental oferece uma base sólida sobre a qual repousaria essa nova rede de acordos comerciais.

Em primeiríssimo lugar, a produção agropecuária e seu relevante papel na conservação de uma política mundial de segurança alimentar.

Em segundo lugar, as potencialidades já bem quantificadas da capacidade de produção e exportação de petróleo, gás natural e bio combustíveis.

Em terceiro lugar, o valor e volume crescente de produção de energias renováveis e limpas (água, sol e vento) ambos favorecendo a sustentabilidade das produções minerais e agrícolas e seu comércio internacional.

Finalmente, em quarto lugar, o enorme potencial atrativo aos capitais públicos e privados internacionais de investirem na infra- estrutura sub-regional que será requerida para dar vazão ao crescimento do comércio internacional, particularmente em direção aos mercados emergentes da Ásia do leste e do sudeste.

O potencial a que acabo de me referir no parágrafo precedente se encontra geograficamente situado na vertente atlântica da América do Sul. As terras férteis, as bacias hidrográficas com vocação exportadora, os grandes planaltos centrais com topografias adequadas aos usos de tratores e implementos agrícolas de última geração tecnológica, a abundancia de subclimas que permitem que as terras tropicais, subtropicais ou temperadas produzam enorme variedade de grãos, frutos e pecuária de corte, são todos fatores que, bem aproveitados, dão suporte a um ambicioso programa subcontinental de produção de bens e serviços destinados aos mercados continentais ou extracontinentais.

A geografia ainda nos dá uma outra lição, derivada do formato da América do Sul. Ao norte, o Subcontinente ocupa inúmeros graus de latitude. Ao sul, ele se estreita drasticamente, fazendo do Chile um país “sui-generis” comprimido entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes. Quando se pensa em ligações físicas interoceânicas não dá para ignorar o papel crucial que o Brasil, e sobretudo a Argentina, têm a desempenhar nesta sonhada ligação interoceânica. Já existem projetos de ligações interoceânicas entre o Atlântico e o Pacífico.

Sua viabilidade econômica é questionada, dependendo da extensão física do investimento pretendido. Melhor é começar pelo extremo sul, onde dois oceanos se aproximam. Do ponto de vista geopolítico, parece promissor que as duas maiores economias atlânticas da América do Sul, Brasil e Argentina, tomem a si a decisão de aprofundar a já existente aliança estratégica e juntos lancem um programa de integração regional ofensivo e não defensivo, aberto e não protecionista, amigável aos capitais disponíveis em um mundo desenvolvido mas em encolhimento estrutural fazendo com que o conceito de latino-americanidade, tão decantado em proza e verso pelos nossos intelectuais ibéricos, liberte-se da retorica poética e invada o universo das realidades políticas.



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